Amigas

•junho 9, 2012 • Deixe um comentário

Eram amigas há bastante tempo. Andavam sempre juntas, declaravam-se irmãs. Outros não compreendiam tal amizade. Estranha e pejorativa – eis os adjetivos como a definiam.

Mesmo únicas, possuiam temperamentos opostos. Porém, sempre chegavam a um acordo cognitivo. Temiam a separação por tolices.

Chegou a época do Vestibular e haja incentivo mútuo.

Em seguida, a faculdade. Escolheram o mesmo curso e foram aprovadas de imediato. Letras/Literatura Portuguesa já fazia parte dos seus sonhos. Pretendiam superar os limites da profissão.

Durante os semestres, uma despertava mais a atenção dos colegas que a outra. Mais uma vez, isso não interferia no relacionamento delas que a cada dia se fortalecia mais, quando apareceu Zeus em suas vidas que lhes tirou o sono e o sossego. Então, o desejou falou mais alto e a luta pela libido foi mais além.

Uma fusão de mito versus realidade, ele buscava agradar ambas. Porém, elas se recusavam a ser seu Mínimo Divisor Comum. Unanimidade era o princípio em suas vidas.

Por causa disso, elas já não conseguiam conviver mais na companhia uma da outra. Decidiram se separar para se tornar rivais, pois nenhuma cogitava nem ousava em desistir ou dar trégua.

Os mais próximos, ao mesmo tempo, se divertiam com o desenrolar das cenas, se não desejavam ansiosamente pelo final desse drama.

Zeus, aparentemente, não dava ouvidos às palavras ao vento. Continuava sua rotina como todos os dias. Deu-se conta do que estava havendo durante uma calourada geral. Então, seu ego falou mais alto e admitiu seu desejo de posse pelas duas.

Teria que ficar com elas, sim! Quem sabe um mènage a trois – pensou um tanto pervertido.

De imediato, se imaginou num personagem de Clarice Lispector, cujo conto tratava de um homem que vivia com duas mulheres. Esperava ao menos tentar um acordo com as duas. Faria jus ao próprio nome, honrando-o mais tarde.

Em meio ao impasse, sugeriu a ambas uma viagem. Na sua cabeça, muitas coisas passavam. Já se sentia realmente ZEUS com aquelas ninfas. Ainda bem que elas aceitaram o convite sem questionamentos. Isso era bom começo aos seus planos.

Fora para sua casa em Guaramiranga. Antes, recomendou alguns detalhes ao caseiro – vinho, lençóis de seda, se possível vermelho paixão, tudo. Queria desfrutar daqueles três dias no Olimpo e degustar dos mais devassos prazeres do terceiro pecado capital: a luxúria.

Assim, para apimentar mais o que estaria por vir, presenteou-as com um exemplar de Bocage, seu autor preferido. Pensou em Marguerite Duras ou João Ubaldo, mas deixou para uma outra ocasião. Dependendo do aflorar de outros sentimentos, o Marquês de Sade poderia mais tarde, inspirá-lo.

Chegaram à noite e sem muito esperar, foi logo lhes dando vinho, antes do jantar. Elas aceitaram sem mais. Brindaram em nome de todos e juntas falaram: sempre no agora.

Ele achou esquisito, mas apenas sorriu. A seu ver, elas não passavam de tolas entoando algo sem sentido, não sabiam o que lhes aguardavam após taças e garrafas de vinho. Quando começou a sentir uma queimação misturada a um entalo. Não compreendia como poderia ficar doente assim, de repente!

Tentou se levantar, mas não conseguiu, as pernas estavam paralisadas.

Uma delas se aproximou com um ar preocupado, pegou sua mão e beijou. A outra, com o corpo colado ao seu ombro, sibilou algo inaudível e mordiscou sua orelha. Ambas sorriram e esta falou num bom tom:

– Bem, a festa só está começando, Zeus. Você dormirá profundamente por um longo tempo…

Sem mais, aquela mostrou um bisturi cirúrgico no seu campo de visão. Apenas piscava sem conseguir pronunciar palavras.

– Somos amigas há muito tempo e em nome da nossa eterna amizade, decidimos que você estará e será nosso Sempre no Agora.

Uma começou a lhe cortar a barriga que num só corte, transbordou de sangue sujando a roupa dele. O desfalecimento chegou aos poucos, já não conseguia nem pensar.

Na verdade, elas tiraram seus órgãos, comeram o coração ao molho, deixando-o para o empalhamento.

Foi trabalhoso porque só faziam com animais e ele seria a obra-prima. Ao terminar, olharam para ele, um objeto, uma obra de arte digna de mestre. O curso tinha valido a pena, mesmo pela internet.

Sorriram uma para outra e trocaram pequenos afagos, selando com um beijo.

– NOSSO AGORA SEMPRE – murmurarram para finalizar o pacto.

O Caso de Charles Dexter Ward

•março 9, 2011 • Deixe um comentário

O jovem Charles Dexter Ward sempre foi interessado em Arqueologia. Mas, sua vida teve uma brusca mudança ao tomar conhecimento de Joseph Curwen, um alquimista que realizava rituais de magia.

Descobrindo por acidente se tratar do seu antepassado, Charles viaja em busca do ocultismo e outras ciências relacionadas, e ao regressar à Providence, procura pela tumba de Joseph. Mais tarde, ele dá continuidade às investigações deste mergulhando num mundo desconhecido e sem retorno que afeta a si e a família.

Assim, aparentando ao mesmo tempo um estado de degradação física e psicológica, Charles é internado num hospício, desaparecendo em seguida, sem deixar vestígios. O médico que acompanhava seu tratamento desde o início, o dr. Marinus Bicknell Willet, resolve investigar seu passado e ter acesso as suas anotações. Segundo ele, elas conteriam as respostas para tais acontecimentos.

A obra faz uma análise da loucura da personagem, expondo a importância do desconhecido durante toda a narrativa. Com poucas informações e sendo liberada aos poucos, o leitor vai se prendendo na história a cada resposta aos enigmas decifrados.

A Cama

•março 9, 2011 • Deixe um comentário

Levando consigo seu filho, Zecão decidiu recuperar a cama que fora levada por sua irmã, Maria Rita. A cama era um objeto de extremo valor sentimental herdado pelos seus antepassados. Porém, durante o trajeto, sofreu um acidente, indo parar no hospital. Não se dando por vencido, mandou o filho, Tobias, apesar das recomendações impostas.

Ao chegar à casa da tia, a cama já tinha sido vendida para uma amiga, Elvira, que estava com a filha Petúnia. Tobias ficou chocado com as condições as quais sua tia vivia junto com um bebê. De todas as maneiras, tentou persuadi-la a mudar de ideia, lembrando da maldição que havia na cama, caso alguém da família se desfizesse dela.

Petúnia, ao ver Tobias, se apaixonou de imediato, dando-lhe seu endereço. Meio sem jeito e preocupado com o rumo da situação, ou seja, a venda da cama, prometeu encontrá-la em breve.

Satisfeita com a tal compra, Elvira resolveu presentear Rosa, a filha mais velha que iria morar com Jerônimos, o flautista. Porém, o presente tanto desagradou como assustou o genro.

Ao deparar com aquela cama enorme, de jacarandá, pesada, com entalhes na cabeceira, os pés em forma de pata, ocupando grande espaço no seu estúdio, ele se negou a compartilhá-la com Rosa. Magoada com a reação do grande amor, retornou a casa da mãe, disposta a esquecê-lo.

Sem pensar duas vezes, Jerônimos trocou a cama por um velho divã numa loja de antiquários, sem nem ao menos consultar Rosa.

Elvira, indignada com a reação da filha e com a atitude do genro, recuperou o objeto às pressas, vendendo-o para Américo, um amigo da família. Este presenteou a filha, Roberta, aproveitando o momento para fazer as pazes. Ao invés disso, o passado atormentou a ambos, provocando uma separação que duraria pra sempre.

Mais uma vez, a cama provocou discórdias entre pessoas mais próximas, deixando-as sempre à mercê de sua disputa.

O romance citado aborda memórias em que a cama é retratada como a metáfora da vida. Ora, ela presencia nascimentos e mortes, ora interfere no destino dos personagens. A maldição proferida pela matriarca (“a cama deveria permanecer na família sob pena de que recairiam grandes desgraças sobre aquele que se desfizesse dela”) se concretizou a partir de pequenos desentendimentos, que culminam em acontecimentos envolvendo dor e solidão.

Dona Anja

•março 22, 2010 • Deixe um comentário

Após a morte do marido, Dona Anja troca seu amplo sobrado por uma bela chácara – mais tarde conhecida como A CASA.

Conceituada como um ambiente pacato e discreto, ela e suas graciosas meninas proporcionam momentos de descontração e lazer aos seus clientes além de visitas de pessoas ilustres.

Numa noite de junho, Dona Anja reúne alguns convidados para ouvir, pela rádio, a votação do Projeto do Senador Nélson Carneiro que aprova o divórcio no Brasil. Esse assunto causa polêmica à pequena cidade de Rosário que defende com ardor a moral e a família.

Porém, após o resultado da votação, uma fatalidade abala todos, principalmente a anfitriã que teme o fim da reputação do seu estabelecimento construída há anos.

Adaptada como telenovela em 1996, a obra aborda um momento histórico por qual passava o país: a aprovação do divórcio em 1977.

Em estilo de folhetim, a narração se apresenta de maneira poética e fluente. O romance faz uma crítica à nação que está dividida em meio a tantas transformações políticas e culturais.

Stress

•março 21, 2010 • Deixe um comentário

Seus cabelos estavam caindo…

Entre uma escovada e outra, os fios vinham aos tufos.

Meio triste e com o semblante preocupado, recolhia-os colocando na lixeira com certo pesar.

O pior estava por vir – algum desequilíbrio orgânico ou uma desconhecida patologia. Isso já aconteceu a alguns anos, retornando nos últimos meses.

Ainda não fora a nenhum médico, temendo o horrendo diagnóstico. Se continuasse fugindo, não saberia o porquê dessa queda.

Relembrou os últimos acontecimentos em sua vida. Houve momentos bons, ruins, raivas, tristezas, ressentimentos.

Além disso, sofria com outro tormento: insônia. Tentou diversas receitas para curar a falta de sono: contou carneirinhos, tomou o chá da flor do maracujá com cápsulas de Passiflorine, submeteu-se a sessões de acupuntura, tudo. Mas, em nada resultou, senão mais noites em claro.

Uma vez na cama, era para ouvir o ressonar do marido. Então, sem aguentar mais, levantava-se para fazer algo na madrugada. Ora ficava diante da tv surfando pelos canais ora na internet em busca de esclarecimentos para si. Porém, nada seduzia o caloroso Hipnos.

Ao amanhecer, ainda tentava dormir um pouco, mas só conseguia um leve cochilo.

Aos poucos, sua aparência estava ficando cadavérica. Nem a maquiagem disfarçava mais. Não poderia seguir avante com isso. Tinha que haver alguma resposta para esses distúrbios.

Devido a isso, deixou até de sentir fome. Os fast foods não eram mais tão atraentes nem outros pratos saudáveis.

Mesmo assim, insistia em frequentar a academia para relaxar um pouco, quando sentiu a perda de um dente enquanto usava a esteira. Parou bruscamente e muito assustada, retirou-se à francesa. Chegando a casa, cuspiu outro. Daí, o desespero a invadiu.

Recorreu a um especialista às pressas e por sorte, marcou a consulta para o mesmo dia. Independente do resultado queria apenas a sua verdade sã.

Ansiosa e apreensiva chegou ao consultório muitas horas antes e ficou se entretendo com as revistas e folhetos da recepção. Ao passar das folhas, reviu sua vida sob amplos aspectos.

Diante do médico, relatou com riqueza de detalhes o problema. Ele a examinou minuciosamente e foi bem sucinto na resposta: STRESS. Recomendou uma drástica mudança de hábitos e a encaminhou ao psiquiatra.

Ela ainda argumentou que outro especialista era desnecessário, quando repentinamente, a unha do mindinho caiu. Constrangida com o acidente, evitou mais discussão. Faria o que mandasse, só desejava estar saudável como antes.

Saiu da clínica cabisbaixa e pensando no pior. Passou a mão pela cabeça arrastando mais fios. Nada compreendia! Apenas que era vítima de stress.

Andou sem prestar atenção ao redor quando ao atravessar a rua, não percebeu o semáforo verde e a moto que se aproximava. Em questão de segundos, foi arremessada a calçada oposta, sentindo o trincar dos ossos e um aperto na garganta.

Ainda ouviu gritos e pedidos em seu socorro. Depois, o som se transformou em vácuo e suas pálpebras paralisaram. Sua imagem no chão ensangüentado se distanciou com rapidez…

Provérbio às avessas

•março 8, 2010 • Deixe um comentário

A primeira vez em que a viu no seu consultório, não conseguiu tirar os olhos um instante sequer. Nada se comparava a  tanta beleza inata naquela mulher.

Se não fosse a sua assistente proferir algo, ele teria continuado a olhar, esquecido até do tempo.

Tudo nela exalava suavidade, o andar, o olhar, absolutamente tudo.

Sentiu um pouco de constrangimento quando ela abriu a boca. Nossa! Nunca tinha visto arcadas tão perfeitas e brancas, virginais – assim as definias.

No mínimo, seguia com exatidão todas as orientações de um outro odontólogo – evitar alimentos ricos em cafeína; usar sempre fio dental ao escovar os dentes; entre outras. Enfim, não soube continuar, ficou alguns instantes admirando aquela maravilha de boca.

– Pronto! Seus dentes estão perfeitos, sem cáries – falou após um exame bem minucioso.

Sem hesitar, ela o encarou com descrédito e murmurrou num tom adocicado.

– Doutor, eu tenho problemas de sensibilidade.

– Ops! – seus pensamentos gritaram por ele. Tomou um susto ao ouvir aquilo. O que poderia  fazer? Ele se sentiu tentado a muitas coisas.
– Principalmente, com bebidas quentes… – continuou.

Ele, pigarreou para disfarçar sua malícia e voltou a examinar sua boca. Se pudesse, adentraria para melhor explorá-la.

Não sabia como descrever o diagnóstico. Precisava revê-la outras vezes até se acostumar com a saudade.

Pousou os instrumentos, baixou a máscara e prescreveu um exame. Sua mãos insistiam em suar e tremer. Torcia para que isso passasse despercebido.

Impulsivamente, entregou a solicitação, sem encará-la. Ainda corria o risco de perder o controle.

Ela, por sua vez, pegou o papel e tocou sua mão.

– Muito obrigada pela sua atenção – sussurrou de forma sibilante.

Ele só ouviu o bater da porta às costas dela e ficou ali, assimilando suas palavras por algum tempo. Quando notou a foto da filha com o semblante fechado, recriminando seu comportamento e a sua falta de profissionalismo.

Hora de voltar a realidade e guardar esta fantasia para um momento privê.

Voltou a atender seus pacientes como se nada tivesse acontecido.

A próxima era uma idosa com poucos dentes e um forte hálito de alho. Ensaiou alguns galanteios  e elogiou cada movimento seu.

Apenas sorriu com tolerância e pensou num ditado às avessas: DEPOIS DA BONANÇA, VEM A TEMPESTADE.

Taquicardia

•fevereiro 21, 2010 • Deixe um comentário

E bate o coração acelerado, apressado, angustiado.

Quando acontece algo assim, sempre pergunto o que poderia ser feito num momento de sim’s e não’s. Qualquer um que seja, é válido e serviu a lição. Mas, esta sensação ruim e pesada que fica, e perdura por horas…

Tento respirar fundo, deixar o ar fluir bem e oxigenar meu cérebro. Se não, penso noutras coisas como tentativas de alívio. A imaginação é empurrada a garimpar além do presente ou num possível futuro, mostrando outra realidade que bem serviria para tranqüilizar.

Não adianta, não consegue e o peso disso é insuportável.

Por outro lado, os resquícios podem servir para uma próspera vingança. O fel da maldade vai se transformando no mel da satisfação, mais tarde em calmaria. Sobre isso, eis o eterno retorno de um filósofo niilista.

Mas, e agora, o que fazer para aplacar a coisa ruim que faz engolir seco? Também, penso se não pequei nas palavras ditas, não? Ao menos, honrei o que eu pronunciei em tom zombeteiro e obtive a prova de que sempre há trocas entre outros. Nesse caso, o fel é mel que será saboreado por todos em algum tempo.

Bem, adormeça o passado que até poucas horas era presente. É lastimável usar isso no amanhã, porém outra maneira é em vã. Saiba que tudo vem e vai a semelhantes distâncias. O foco agora é outro.

No momento, só devaneios que se afastarão lentamente. E se precaver com o que é pronunciado e soado, apenas!

Ao invés do agonizante basta, acredito ser tudo possível para amenizar tal angústia. O peito se desvanece em taquicardia e pulsa em leves batidas. Já passou, sim! Um gole da sensibilidade aplaca o arrependimento e siga avante, mesmo olhando sempre para atrás.

Pois, este erro sempre virá e novas aprendizagens estarão pelo caminho, em seguida. Não se preocupe! Deixa repetir sempre, aliás, permite transformar em vício o que sempre resulta nisso, o alívio.

É o bastante!