Amigas

Eram amigas há bastante tempo. Andavam sempre juntas, declaravam-se irmãs. Outros não compreendiam tal amizade. Estranha e pejorativa – eis os adjetivos como a definiam.

Mesmo únicas, possuiam temperamentos opostos. Porém, sempre chegavam a um acordo cognitivo. Temiam a separação por tolices.

Chegou a época do Vestibular e haja incentivo mútuo.

Em seguida, a faculdade. Escolheram o mesmo curso e foram aprovadas de imediato. Letras/Literatura Portuguesa já fazia parte dos seus sonhos. Pretendiam superar os limites da profissão.

Durante os semestres, uma despertava mais a atenção dos colegas que a outra. Mais uma vez, isso não interferia no relacionamento delas que a cada dia se fortalecia mais, quando apareceu Zeus em suas vidas que lhes tirou o sono e o sossego. Então, o desejou falou mais alto e a luta pela libido foi mais além.

Uma fusão de mito versus realidade, ele buscava agradar ambas. Porém, elas se recusavam a ser seu Mínimo Divisor Comum. Unanimidade era o princípio em suas vidas.

Por causa disso, elas já não conseguiam conviver mais na companhia uma da outra. Decidiram se separar para se tornar rivais, pois nenhuma cogitava nem ousava em desistir ou dar trégua.

Os mais próximos, ao mesmo tempo, se divertiam com o desenrolar das cenas, se não desejavam ansiosamente pelo final desse drama.

Zeus, aparentemente, não dava ouvidos às palavras ao vento. Continuava sua rotina como todos os dias. Deu-se conta do que estava havendo durante uma calourada geral. Então, seu ego falou mais alto e admitiu seu desejo de posse pelas duas.

Teria que ficar com elas, sim! Quem sabe um mènage a trois – pensou um tanto pervertido.

De imediato, se imaginou num personagem de Clarice Lispector, cujo conto tratava de um homem que vivia com duas mulheres. Esperava ao menos tentar um acordo com as duas. Faria jus ao próprio nome, honrando-o mais tarde.

Em meio ao impasse, sugeriu a ambas uma viagem. Na sua cabeça, muitas coisas passavam. Já se sentia realmente ZEUS com aquelas ninfas. Ainda bem que elas aceitaram o convite sem questionamentos. Isso era bom começo aos seus planos.

Fora para sua casa em Guaramiranga. Antes, recomendou alguns detalhes ao caseiro – vinho, lençóis de seda, se possível vermelho paixão, tudo. Queria desfrutar daqueles três dias no Olimpo e degustar dos mais devassos prazeres do terceiro pecado capital: a luxúria.

Assim, para apimentar mais o que estaria por vir, presenteou-as com um exemplar de Bocage, seu autor preferido. Pensou em Marguerite Duras ou João Ubaldo, mas deixou para uma outra ocasião. Dependendo do aflorar de outros sentimentos, o Marquês de Sade poderia mais tarde, inspirá-lo.

Chegaram à noite e sem muito esperar, foi logo lhes dando vinho, antes do jantar. Elas aceitaram sem mais. Brindaram em nome de todos e juntas falaram: sempre no agora.

Ele achou esquisito, mas apenas sorriu. A seu ver, elas não passavam de tolas entoando algo sem sentido, não sabiam o que lhes aguardavam após taças e garrafas de vinho. Quando começou a sentir uma queimação misturada a um entalo. Não compreendia como poderia ficar doente assim, de repente!

Tentou se levantar, mas não conseguiu, as pernas estavam paralisadas.

Uma delas se aproximou com um ar preocupado, pegou sua mão e beijou. A outra, com o corpo colado ao seu ombro, sibilou algo inaudível e mordiscou sua orelha. Ambas sorriram e esta falou num bom tom:

– Bem, a festa só está começando, Zeus. Você dormirá profundamente por um longo tempo…

Sem mais, aquela mostrou um bisturi cirúrgico no seu campo de visão. Apenas piscava sem conseguir pronunciar palavras.

– Somos amigas há muito tempo e em nome da nossa eterna amizade, decidimos que você estará e será nosso Sempre no Agora.

Uma começou a lhe cortar a barriga que num só corte, transbordou de sangue sujando a roupa dele. O desfalecimento chegou aos poucos, já não conseguia nem pensar.

Na verdade, elas tiraram seus órgãos, comeram o coração ao molho, deixando-o para o empalhamento.

Foi trabalhoso porque só faziam com animais e ele seria a obra-prima. Ao terminar, olharam para ele, um objeto, uma obra de arte digna de mestre. O curso tinha valido a pena, mesmo pela internet.

Sorriram uma para outra e trocaram pequenos afagos, selando com um beijo.

– NOSSO AGORA SEMPRE – murmurarram para finalizar o pacto.

Anúncios

~ por Márcia Vidal em junho 9, 2012.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: