Provérbio às avessas

A primeira vez em que a viu no seu consultório, não conseguiu tirar os olhos um instante sequer. Nada se comparava a  tanta beleza inata naquela mulher.

Se não fosse a sua assistente proferir algo, ele teria continuado a olhar, esquecido até do tempo.

Tudo nela exalava suavidade, o andar, o olhar, absolutamente tudo.

Sentiu um pouco de constrangimento quando ela abriu a boca. Nossa! Nunca tinha visto arcadas tão perfeitas e brancas, virginais – assim as definias.

No mínimo, seguia com exatidão todas as orientações de um outro odontólogo – evitar alimentos ricos em cafeína; usar sempre fio dental ao escovar os dentes; entre outras. Enfim, não soube continuar, ficou alguns instantes admirando aquela maravilha de boca.

– Pronto! Seus dentes estão perfeitos, sem cáries – falou após um exame bem minucioso.

Sem hesitar, ela o encarou com descrédito e murmurrou num tom adocicado.

– Doutor, eu tenho problemas de sensibilidade.

– Ops! – seus pensamentos gritaram por ele. Tomou um susto ao ouvir aquilo. O que poderia  fazer? Ele se sentiu tentado a muitas coisas.
– Principalmente, com bebidas quentes… – continuou.

Ele, pigarreou para disfarçar sua malícia e voltou a examinar sua boca. Se pudesse, adentraria para melhor explorá-la.

Não sabia como descrever o diagnóstico. Precisava revê-la outras vezes até se acostumar com a saudade.

Pousou os instrumentos, baixou a máscara e prescreveu um exame. Sua mãos insistiam em suar e tremer. Torcia para que isso passasse despercebido.

Impulsivamente, entregou a solicitação, sem encará-la. Ainda corria o risco de perder o controle.

Ela, por sua vez, pegou o papel e tocou sua mão.

– Muito obrigada pela sua atenção – sussurrou de forma sibilante.

Ele só ouviu o bater da porta às costas dela e ficou ali, assimilando suas palavras por algum tempo. Quando notou a foto da filha com o semblante fechado, recriminando seu comportamento e a sua falta de profissionalismo.

Hora de voltar a realidade e guardar esta fantasia para um momento privê.

Voltou a atender seus pacientes como se nada tivesse acontecido.

A próxima era uma idosa com poucos dentes e um forte hálito de alho. Ensaiou alguns galanteios  e elogiou cada movimento seu.

Apenas sorriu com tolerância e pensou num ditado às avessas: DEPOIS DA BONANÇA, VEM A TEMPESTADE.

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~ por Márcia Vidal em março 8, 2010.

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