Ano novo

Véspera de ano novo e até agora, inexistem convites para o grande amanhã…

Aliás, houve o único sugerido pela sogra: ir à casa de um casal desconhecido, amigo do segundo filho.

Recusou de imediato mesmo com seus possíveis argumentos de lazer sem falar do corrosivo arrependimento em seguida! A seu ver, réveillon não combina com clima familiar.

De qualquer maneira, ficaria a espera de algum outro, se não restava ficar em casa com o marido, a mãe e seus gatos. Por um lado, seria bom. Pois, estaria isenta de qualquer perigo na selva de pedra. Por outro, mais um ano sem ter para onde ir e de entediante retrospectiva para si.

Na verdade, estava tentando a todo custo se animar. Durante o dia, executou inúmeras tarefas acumuladas de muito tempo, não parou um instante sequer para a soneca da tarde. Torcia para que tudo isso passasse logo. Qual sentido tinha o ano novo se não estivesse bem consigo mesma? – repetia em pensamentos para se automotivar.

Cogitou até tomar alguns calmantes com tarja preta para não presenciar nada nem ouvir o barulho dos fogos de artifício. Temia uma crise de choro misturada a raiva e algum outro sentimento sórdido.

Se pudesse voltar ao passado ou avançar um pouquinho no futuro…

Como todos os anos, prometia sempre a si que os próximos 365 dias seriam bem diferentes – mais dinheiro, imunidade sanitária e desejos realizados.

Tentou se distrair assistindo um violento filme de ação. Mas, como previsto, a concentração transpareceu nas primeiras cenas! Nem a leitura das legendas fazia jus a sua atenção. Só pensava no dia posterior às 23h59.

O marido já demonstrava sinais de depressão. Reclamou desde cedo, a contragosto dela, que necessitava da companhia de outros da sua espécie. Após a licença de 45 dias, ficou traumatizado com a casa. Ela o compreendia, mas ficava meio magoada por não preencher seu vazio no todo.

Cabisbaixa, se recolheu ao quarto sem que ele a notasse. Sob a fraca luz do abajur, lágrimas correram pela face sem o mínimo incômodo. Já supunha semelhante descaso daqui a 24 horas. Não aguentaria outro eterno retorno dele!

Na mesinha de cabeceira, uma foto de poucos meses de namoro denunciava felicidade e desmedido amor, e ao lado dela, uma caixinha de música que conservava a magia daquele momento. Demorou-se olhando os dois objetos como se buscasse respostas a sua angústia. Queria se aprisionar aquela imagem a qualquer preço e esquecer a dura realidade do ano novo. Pois, lembrava com intensidade e clareza o quanto viveu aquela época.

E assim ficou com um sorriso extático e o olhar parado de nostalgia. Quem a visse juraria estar morta no seu tempo, se não em paz a sua medida.

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~ por Márcia Vidal em dezembro 31, 2009.

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