A Cura pelas reminiscências

As mãos tremiam descontroladamente. Não sabia como deixá-las. Unidas ou separadas, elas continuavam a tremer. Devido a isso, não conseguia fazer absolutamente nada. Sentia-se a inválida.

Tudo se transformava num desastre. Se tentava matar a sede com um simples copo com água, derramava em pouco tempo, restando apenas respingos. Para se alimentar era outra dificuldade, principalmente quando o cardápio era sopa. A colher parecia mais uma catapulta, sujando a mesa e as paredes da cozinha. Sem se conter e esquecendo quem e o que era, imitava um animal qualquer abocanhando os restos com avidez.

Fazia alguns dias que estava com essa seqüela. Foi vítima de um colapso nervoso de um momento do qual se recusava a relatar. O neurologista a quem já tinha feito inúmeras ligações, assegurou-lhe que algumas cápsulas de Parmelor e All-não-sei-o-que nos horários determinados, tudo voltaria ao normal. Ela seria aquela sem tremeliques e taquicardia sem falar das pupilas dilatadas quase 24 horas.

Mas, já começava a cair no desespero. Nada do esperado efeito e seu estado se agravava mais. Já não dobrava mais o mindinho que jazia sem vida na mão esquerda. A sua vontade era decepá-lo. Não tinha sentido continuar com aquele membro.

A mente fervilhava de preocupação por isso. Não poderia ficar sem as mãos até porque dependia delas. Como iria viver? E era uma das partes do corpo que mais admirava. Se ao menos tivesse sido alguma outra como os seios. Não se importava de tê-los. Eles a incomodavam muito. No passado, visitou vários cirurgiões para retirá-los oferecendo uma boa quantia em dinheiro. Mas, nenhum deles até mesmo o mais desonesto resistiu a tamanha tentação.

O pior era depender de outros, algo que feria seu orgulho. Os familiares com uma sórdida pena, encontraram uma auxiliar de enfermagem que chegaria daqui a poucos dias. Insistentemente, tentaram convencê-la da companhia da outra. Não entendiam sua fobia por pessoas e seu prazer pela solidão.

Ridículo! Não poderia permitir tal insulto e essa invasão de privacidade! Seria, então, o início do seu fim? Breve, acharia outra e nova solução.

Quando teve a idéia de usar luvas de boxe para esquecer um pouco a deficiência. Lembrou que tinha um par guardado no armário. Antes, vez por outra as colocava enquanto assistia o nocaute com o adorável Mike Tyson. Bons tempos… Altas madrugadas com pulos e palavras de baixo calão.

Ao menos agora, evitaria olhar e sentir o tremor e quem sabe, eis o segredo da cura, ou seja, a cura pelas eternas reminiscências. Fez menção de ligar para o neurologista, mas desistiu. No fim, ele passaria mais medicamentos como ALL-não-sei-o-quê e quem sabe a família até a internaria.

Então, com tremores e desorganizando o closet, achou as tais luvas. Para colocá-las foi necessário usar boca, dentes, rosto, o que ainda funcionasse em si. E após amarrar o último cadarço, sentou na poltrona muito suada e com cabelos desalinhados. Mas, com um sorriso irônico estampado de satisfação.

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~ por Márcia Vidal em dezembro 22, 2009.

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