Bolinha

rosa

Estava tomando seu café da manhã, quando sentiu um aperto súbito no coração.

Algo aconteceu! – sussurrou. Então, sem mais esperar, ligou para a mãe e ouviu a tragédia: Bolinha, o gato da família, tinha acabado de falecer.

O chão lhe faltou e graças a uma mesa apoiou o corpo. Apertou o celular contra o ouvido, sem acreditar no que ouviu. Pediu a mãe para repetir diversas vezes a qual aos berros, obedeceu ao seu pedido.

Imediatamente, ligou para o marido aos prantos. Não conseguia acreditar que o seu querido tinha partido, após tantos anos de convivência e afeto. Mais calma, retornou a ligar para a mãe, combinando os detalhes do sepultamento. Isso tinha que ser feito, era de praxe fazer com os animais que cuidava.

E assim passou o dia – fechada, trajando preto e sem ouvir música alguma. Recusava-se até um cordial gesto. Precisava ficar de luto em memória do querido gato. Não conseguia sorrir ou falar naturalmente, se não a voz ficava embargada de emoção e as lágrimas que insistiam em cair.

Desse modo, resolveu fazer um santinho no computador com a foto e poesia. Escolheu a mais adequada possível e nada melhor que Vinícius de Moraes.

Divino – repetiu diversas vezes uma vez pronto. Em seguida, enviou por e-mail para amigos e conhecidos que conheciam o ente. Sentiu até aliviar um pouco o peso da perda, quando recebeu os pêsames de alguns.

Outra vez, ligou para a mãe, quando soube por essa que o estimado gato seria jogado no lixão dentro de um horrendo saco de lixo ainda mais por um estranho da clínica veterinária mais próxima. De imediato, não consentiu com tamanha falta de respeito e consideração pelo animal, decidindo ela mesma sepultá-lo. Combinou então, buscar o corpo quando encerrasse seu expediente.

As horas demoravam a passar, quando resolveu pesquisar sobre Taxidermia na Internet. Se não conseguisse sepultá-lo, tentaria ao menos empalhá-lo. Não se conformava um minuto sequer em ficar sem o Bolinha. Mas, tudo em vão. Não existia em Fortaleza esse tipo de profissional.

Mais tarde, foi à casa da mãe e o viu todo em panos como um bebê, mas num estado que já merecia o eterno descanso. Revoltou-se com as formigas que estavam no corpo dele e resolveu tirá-las, matando-as. Desesperada, chorou todas as lágrimas agarrada ao corpo. Não queria largá-lo, ele tinha que viver, voltar a viver, quando seu marido tentou acalmá-la e ao mesmo tempo, tomando-lhe o gato.

Ao chegar em casa, fez o sepultamento do gato com todas as honras possíveis. Colocou-o numa caixa na qual guardava suas fotos com ele e por fim, sobre o túmulo, uma rosa branca tal como sua cor. Ainda chorou mais um mar de lágrimas. Não conseguia se conformar.

Naquela noite, não dormiu. Deixou-se levar pela nostalgia olhando as fotos suas com o Bolinha até o despontar dos primeiros raios de sol. Nesse instante, tomou consciência que a vida continuava e não tinha como lutar para a inexistência do fim. Isso já era uma certeza natural.

Por outro lado, estava tranquila consigo mesma. Pois, ele estava ali, próximo, aliás, sempre estaria. E lembranças sempre haveriam de existir para ela. Ainda derramou mais lágrimas ao sussurrar:

– Descanse em paz, Meu Gato!

Imediatamente, organizou as fotos e aproveitou algumas horas para descansar. Pois, necessitava disso ao menos por aquele momento…

Anúncios

~ por Márcia Vidal em novembro 2, 2009.

Uma resposta to “Bolinha”

  1. Eu passei por isso, sei como é horrível. Beijos!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: