A Passagem

loucura

Depois de muito tempo, pensando, decidiu ser um animal. Passou a viver tal qual um rato de esgoto. Não tinha mais razão nem sentimento. Tudo isso se resumiu ao instinto de apenas sobreviver no novo mundo.

Então, apenas comia nas horas vagas e caçava de maneira horrenda. Não conseguia pensar no antes porque já não fazia parte de si. Se soubessem como a sua vida se dizia normal, ninguém acreditaria, mas é verdade, sim!

Seus dias se resumiam a trabalhar, ler muito como um tipo de prazer e usar a solidariedade como filosofia de vida. Todos remetiam elogios a isso e até torciam pelo o sucesso e a prosperidade. Era um mar de rosas, porém em qualquer circunstância, sempre há alguma lição a aprender quando vivos.

Aconteceu que críticas, cobranças e outras palavras ferinas foram proferidas por alguém muito próximo. Segundo, quando contou, esse alguém nunca buscou pelo seu valor. Tentou destruir com todas as armas que possuía e nesse caso, usou a idade como provocação.

Assim, sua rotina, seus nervos sairam do controle. Como válvula de escape, passou a beber, depois se drogar. Estava sempre procurando fortes substâncias, se não as misturando para esquecer o peso que sentia por dentro.

Daí, tudo relacionado a maternidade, amor materno, um ódio interno crescia arrebatadoramente. Frases como EU SINTO MUITO, soava como mentira. “Ninguém sente nada por ninguém a não ser alívio de estar acontecendo com o outro.” E isso pesava mais e mais.

Houve tentativas de cura, mas sem cura. Esse caminho não tinha volta, era consciente disso. Implorava para ser isolado, se possível internado com outros de natureza horrenda, mas não recebeu crédito por qualquer que seja.

E sem outras alternativas, numa tarde a solução apareceu. Estava chovendo na bela cidade e em meio a fortes respingos, viu um rato fugindo das águas do esgoto. Por instante, ele desapareceu por uma grade, sem a menor preocupação de quase ser engolido pelas águas.

Ao ver isso, sentiu um forte desejo de ser aquele animal. Não se importou como vivia, mas só a liberdade e a despreocupação era o que precisava. Queria ser como ele por outros motivos talvez, insanos.

Olhou para a chuva, sentiu os fortes respingos no rosto. Quem sabe ela o convencesse a mudar de idéia e até o curasse. Mas, isso não ocorreu. Era apenas uma romântica despedida para a eterna passagem.

Desabotou o casaco, tirou os sapatos e acompanhou o mesmo caminho do seu salvador. Deixou absorver a podridão dos dentritos com um largo sorriso.

Ao terminar o relato, deixou a mostra dentes tais quais companheiros do submundo. Demonstrou não se importar com nada, se não com restos de alimentos que tinha nas mãos. Mordia repetida e rápidas vezes. Parecia não sentir gosto nem nada.

E se foi sem despedidas.

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~ por Márcia Vidal em março 2, 2009.

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