A Tarde da sua ausência

ausencia

Mal ligou o computador, Henrique se deparou com uma foto que reavivou suas emoções longínquas. No mesmo instante, o toque do telefone o despertou para uma estranha realidade. A filha comunicou a morte da mãe e insistiu que ele notificasse a família. Mal-humorado e recordando as humilhações pelas quais passou, resolveu, então, atender o seu pedido.

O incidente o levou às lembranças de uma tarde na Rua Redentor, em que estava deitado na mesma rede que sua cunhada. O contato corpo a corpo provocava sensações desconhecidas em cada um. Após esse episódio, não houve troca de palavras nem outros encontros.

Por outro lado, Vera guardou essa tarde como um índicio de possíveis mudanças em sua vida. Na verdade, já não era possível conviver sob o mesmo teto que o cunhado devido à reprimida atração que ambos sentiam. Dessa forma, inesperadamente se casou com um mexicano, o que fez apressar sua ida para longe da família.

Em relação a isso, os Machado Alves carregavam um legado histórico de poder e luta pela sobrevivência. Como tradição familiar estabelecida pelo patriarca, quando um filho completava 15 anos, era obrigado a sair de casa e viver por conta própria. De todos que passaram por isso, o único que se deu bem foi Álvaro, mas de forma duvidosa.

Álvaro possuía uma grande residência em Ipanema, além de uma posição de destaque em seu trabalho. Suas duas filhas, Dalva e Vera, complementavam seu cotidiano. Dalva era uma colegial que ainda mantinha os laços familiares da Tijuca. Vera, que antes foi Ex-miss do Tijuca Tênis Clube, era casada com Henrique, um advogado desempregado que vivia de favores da família da esposa. À noite, era comum todos se reunirem para um jogo de roleta, sob a vigilância de um lustre de cristal, relíquia do Cassino da Urca – objeto que ostentava a glória de dias de outrora.

Mas o império dos Machado Alves já não era como antes. Inexistiam reuniões à noite, muito menos a casa de Ipanema. Todos se encontravam em um período de decadência, seja emocional ou financeira, salvo Henrique que decidiu socorrer o sogro.

Carlos Heitor Cony descreve a obra de maneira cinematográfica e mnemônica, adicionando pitadas de ironia que enfatizam a ascensão e a queda dos Machado Alves. A erotização entre os personagens é vista como um tipo de consolo e saída diante dos problemas que os assolam.

O romance atrai primeiramente, permitindo a reflexão de que, numa simples reminiscência, é possível sentir bem mais que a ausência.

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~ por Márcia Vidal em fevereiro 16, 2009.

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