Coruja, lobo e gato : memórias

Desde muito cedo, passei a detestar três coisas: roupas brancas e justas, penteados e ser chamada de bonequinha.

Acreditem! Mas a verdade é que toda mãe tem desejo de fazer de sua filha uma boneca, princesa e outros codinomes dados a crianças do sexo feminino. E a situação se agrava quando se é filha.

Ainda me lembro, como se fosse ontem…

As pessoas da casa preparando bolos, doces e salgados, entre outras guloseimas, enfeitando os cômodos para o que iria se realizar dali a algumas horas.

Eu estava calma e curiosa por tamanho rebuliço, mas continuava ali, observando o corre-corre. Uma vez ou outra, alguém sorria e fazia gracejos. Achava estranho e até tentava imitar.

Então, aconteceu o que eu não esperava. Senti duas mãos me erguerem e, com um largo sorriso, a pessoa sussurrou: “Hora do banho, bonequinha”.

Sem protesto, aceitei. E para comprovação, tudo era delicioso, a água, o cheiro de pom-pom e aquela voz aveludada que cantarolava o melo do hum-hum. Divino!

Em seguida, as mesmas mãos me colocaram numa toalha com estampas de carneiros e me massagearam com movimentos circulares.

Mas as coisas boas duram pouco, e mais trágico do que cômico, fez-se o momento.

Apareceram outras mãos que me puseram num vestido branco, estilo “Maria mijona”, cujo bordado arranhava além de apertar-me o pescoço. No cabelo, foram feitas polianas ou “Maria Chiquinhas”, que me deixaram com os olhos puxados. Por fim, colocaram meias de crochê, que marcaram as minhas pernas, causando uma terrível coceira. Eu estava perdida!

E para meu desespero, ouvia repetidas vezes: “É uma boneca, uma verdadeira boneca”.

Fechei a cara, fiz “bico” e lancei aquele olhar que só os felinos possuem. Gracinhas e adulações não surtiram efeito para provocar meu riso.

Então, fiquei aguardando o que estaria por vir, em cima de uma cama com colcha de retalhos de rede. O tempo logo passou, e o inevitável chegou como um estalar de dedos.

Às pressas, fui levada para outra parte da casa onde havia muitas pessoas.

Eu parecia o próprio bolo, pois várias mãos me tocavam, apertavam minhas bochechas, o braço, os enfeites do cabelo, tudo. Além disso, deparei-me com tantos rostos, vozes e cores, que entrei em pânico e “abri o berreiro”, seguido de um lamento desesperado e impertinente.

Ninguém entendia nada, e continuavam a me assustar com gargalhadas altas e comentários, para mim, nada agradáveis. Um verdadeiro duelo. Eu queria sair dali e ter de volta a paz de antes.

De repente, uma voz: “Vocês são loucos? A menina está sufocada! Deixem-na em paz!”.

Engoli o choro abruptamente ao ouvir o que tanto almejava, sendo salva por alguém que cheirava a rosas e tinha hálito de hortelã.

Imediatamente, reconheci minha heroína, Vovó. Rápido, aconcheguei-me em seus braços e por eles fui suavemente embalada e retirada para longe dali.

Estar com ela era diferente. E, naquele dia, no meu aniversário de um ano, após ter-me salvo de outros, disse baixinho ao meu ouvido: “Quando você crescer, tenha olhos de coruja, faro de lobo e astúcia de gato, pois não é sempre que irei aparecer para lhe tirar de situações como esta”.

E para confirmar, sem decepcioná-la, apertei seu braço com a minha mãozinha e deitei a cabeça em seu peito, cujas batidas do seu coração eram como uma canção de ninar.

Assim, de todos os presentes ganhos naquele dia, este é o único que guardo na memória, como marcado a ferro e fogo pelo tempo. E semelhante a isso, recorda-me um ensinamento budista que é bastante valioso para quedas e ascensões: “Veja o vidro como se já estivesse partido e todo o resto, também”.

Palavras como estas tornam-se um complemento e explicação para não só as épocas de turbulência, mas para as pessoas que nos rodeiam. Porém, com tudo isso, ainda continuo avessa a vestidos brancos, penteados e ouvir “boneca” como elogio.

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~ por Márcia Vidal em julho 15, 2008.

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