Pétalas

 

 

12 de junho de 1988.

 

Dia dos namorados.

 

Flores, caixas de chocolates, declarações de amor, músicas românticas, tudo que fosse estereótipo para o dia, deixava-me com o coração em fiasco.

 

Eu tinha 17 anos e ansiava por isto. Mas o momento não permitia tal partilha.

 

Admito que era corroída pela inveja das colegas de sala que viviam a ocasião sem valorizar, pois só tinham olhos para as futilidades definidas como provas de amor.

 

Assim, tudo corria normal, excetuando a algazarra nos horários de intervalo e os comentários esdrúxulos proferidos pelos professores que eram dirigidos àqueles que cultuavam e eram cultuados pela solidão.

 

Depois vinha o recreio, e eu tinha que suportar a rádio escolar recheada com músicas melosas e declarações absurdas que soavam de maneira ridícula e humilhante.

 

Meio deslocada no pátio e desnorteada pelos corredores do colégio, eu me refugiava na biblioteca para me afogar em poesias e romances. Lá, encontrava meus amores, tornava-me a deusa da minha imaginação e, em troca, tateava pelas páginas escritas o amor verdadeiro de Camões, Camilo Castelo Branco, Drummond e outros. Se não, desabafava com a bibliotecária a quem tinha uma íntima amizade e afeição.

 

Eu desejava veemente que o hoje passasse logo, cedendo lugar para o amanhã, pois só assim evitaria aceitar a inexistência de um amor.

 

E para meu desespero, chegou a noite, exalando aroma de orvalho…

 

O céu tinha mais estrelas que os anteriores e estavam mais brilhantes.

 

Para me distrair, resolvi mergulhar em questões de matemática para despertar a razão que até então se encontrava em estado letárgico, mas a emoção me invadia e me provocava com pensamentos eloqüentes, fazendo-me errar os cálculos.

 

Sôfrega, decidi definitivamente parar e me entregar ao que tanto me sufocava e estava em evidência. Não adiantava abafar algo que está ali, te cercando como um animal em fuga.

 

Respirei fundo e pensei: “Será que daqui a alguns anos estarei assim, sem ninguém e mendigando por um amor?”

 

Eu queria um amor, carecia por isso, mas tinha que ser diferente, com início, encontros, poesias, brigas e beijos.

 

Impulsivamente, lembrei de um ritual que alguns membros da minha família praticavam em momentos de aflição. A hora era adequada a pedidos feitos com o coração.

 

Então, fui ao jardim, colhi uma rosa e comecei a despetalar lentamente. Enquanto fazia isso, imaginava uma pessoa aparentemente séria, muito séria e de semblante fechado, semelhante a um cacto. Com a voz macia e envolvente, intimamente seria doce, carinhosa, enfim, um cavalheiro.

 

Em seguida, pinguei gotas de alfazema que eu tanto gostava e dirigi-me à janela, onde soprei as pétalas. Segundo a tradição, estas pétalas serão levadas pelo vento que irá em busca do seu grande amor. E quando encontrado, por ele serão tocadas e aspiradas.

 

Após isso, o tempo passou, impacientei-me e já tinha perdido as esperanças de encontrar a pessoa que pedi às pétalas.

 

Houve casos passageiros que queriam se tornar eternos, sem que eu conseguisse sentir absolutamente nada. Estes pequenos envolvimentos não passavam de 24 horas e aos poucos descobri que, para uma conquista, a aparência era só um detalhe a ser desmistificado pelo tempo. E outra coisa, eu repudiava pessoas com o QI baixo.

 

Até que, em uma de minhas viagens, conheci aquele que mais tarde chamaria de eterno amor com que viveria e para sempre ficaria. Foi algo como amor à primeira vista que, vez ou outra, acontece na vida. E, ao encontrá-lo, tudo estava ao meu favor, o céu, as estrelas, o mar e até mesmo o vento que cantava baixinho: “ Eu sei que vou te amar, por toda minha vida, eu vou te amar…”.

 

Daí por diante, tudo aconteceu e se transformou. De amigos nos tornamos namorados, depois noivos e, por fim, casados, assim como a realização de pequenos sonhos que, recordando, são grandes sonhos.

 

Por isso, agradeço à vida pelas esperas, as angústias proporcionadas pela solidão, tudo me fez ver que valeu a pena. Pois uma coisa que aprendi durante este tempo é que você só atrai e realiza algo segundo suas atitudes, e para encontrar o que você quer, tem que partir apenas do que você é.

 

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~ por Márcia Vidal em julho 8, 2008.

2 Respostas to “Pétalas”

  1. Excelente texto, adorei a ideía de refugiar-se na biblioteca, a construção imaginária do amor metaforizado na poesia, na palavra e o melhor: o exercício da paciência aliada a esperança, apesar da ángustia visibilizada na solidão. Poético, reflexivo e envolvente. Parabéns pelo texto!

  2. Duas coisas me chamaram atenção no texto: a primeira é que acho que todo mundo já passou por estas angústias da solidão que faz com que procuremos refúgio em meios simplórios mas bantante representativos; e em segundo lugar o fato de também achar que sempre iria acontecer algo melhor e aparecer alguém que isto não dependerá também de muitas mudanças em seu jeito de ser e estar. Muito bom o texto.

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