Stress
Seus cabelos estavam caindo…
Entre uma escovada e outra, os fios vinham aos tufos.
Meio triste e com o semblante preocupado, recolhia-os colocando na lixeira com certo pesar.
O pior estava por vir – algum desequilíbrio orgânico ou uma desconhecida patologia. Isso já aconteceu a alguns anos, retornando nos últimos meses.
Ainda não fora a nenhum médico, temendo o horrendo diagnóstico. Se continuasse fugindo, não saberia o porquê dessa queda.
Relembrou os últimos acontecimentos em sua vida. Houve momentos bons, ruins, raivas, tristezas, ressentimentos.
Além disso, sofria com outro tormento: insônia. Tentou diversas receitas para curar a falta de sono: contou carneirinhos, tomou o chá da flor do maracujá com cápsulas de Passiflorine, submeteu-se a sessões de acupuntura, tudo. Mas, em nada resultou, senão mais noites em claro.
Uma vez na cama, era para ouvir o ressonar do marido. Então, sem aguentar mais, levantava-se para fazer algo na madrugada. Ora ficava diante da tv surfando pelos canais ora na internet em busca de esclarecimentos para si. Porém, nada seduzia o caloroso Hipnos.
Ao amanhecer, ainda tentava dormir um pouco, mas só conseguia um leve cochilo.
Aos poucos, sua aparência estava ficando cadavérica. Nem a maquiagem disfarçava mais. Não poderia seguir avante com isso. Tinha que haver alguma resposta para esses distúrbios.
Devido a isso, deixou até de sentir fome. Os fast foods não eram mais tão atraentes nem outros pratos saudáveis.
Mesmo assim, insistia em frequentar a academia para relaxar um pouco, quando sentiu a perda de um dente enquanto usava a esteira. Parou bruscamente e muito assustada, retirou-se à francesa. Chegando a casa, cuspiu outro. Daí, o desespero a invadiu.
Recorreu a um especialista às pressas e por sorte, marcou a consulta para o mesmo dia. Independente do resultado queria apenas a sua verdade sã.
Ansiosa e apreensiva chegou ao consultório muitas horas antes e ficou se entretendo com as revistas e folhetos da recepção. Ao passar das folhas, reviu sua vida sob amplos aspectos.
Diante do médico, relatou com riqueza de detalhes o problema. Ele a examinou minuciosamente e foi bem sucinto na resposta: STRESS. Recomendou uma drástica mudança de hábitos e a encaminhou ao psiquiatra.
Ela ainda argumentou que outro especialista era desnecessário, quando repentinamente, a unha do mindinho caiu. Constrangida com o acidente, evitou mais discussão. Faria o que mandasse, só desejava estar saudável como antes.
Saiu da clínica cabisbaixa e pensando no pior. Passou a mão pela cabeça arrastando mais fios. Nada compreendia! Apenas que era vítima de stress.
Andou sem prestar atenção ao redor quando ao atravessar a rua, não percebeu o semáforo verde e a moto que se aproximava. Em questão de segundos, foi arremessada a calçada oposta, sentindo o trincar dos ossos e um aperto na garganta.
Ainda ouviu gritos e pedidos em seu socorro. Depois, o som se transformou em vácuo e suas pálpebras paralisaram. Sua imagem no chão ensangüentado se distanciou com rapidez…

