Averso

Se pudesse, faria todas as refeições com todos sem precisar tomar o chá de boldo, após. Mas, mesmo se quisesse, faria em pensamentos – ritual que se iniciou há pouco.
Estava farta de outros. Seguir avante e enfrentar mais alguma saga sugavam todos seus potenciais. Já era o bastante ter chegado ali. A saída é satisfazer o nocivo que crescia tal qual um verme nas entranhas.
Começando do começo, ainda vivia o mesmo cotidiano – casa, trabalho, casa. Nas horas vagas, ocultava num mundo longe de humanos. Eles faziam um mal a si nem o fale. Preferia estar com seus gatos, animais educados e clássicos. Aprendia muito com suas atitudes e gestos. Eles eram seus verdadeiros companheiros e a segurança no olhar, traduzia o que há tempos buscava.
Devido a isso, cogitava em se tratar. Andava meio doente, com um aperto no peito e o peso no cérebro. Para aliviar, comprou um frasco valeriana, conforme as instruções da atendente. Se bem que essas não a convenceram dos próximos efeitos uma vez tomando a cápsula. Foi seduzida pela embalagem – muito verde e no fim, uma florzinha quase murcha tentando uma possível fuga.
Bem, isso foi numa quinta-feira, à tarde. Decidiu que merecia uma folga da rotina chamada trabalho. Não esperou muito e engoliu a pílula, cujo cheiro era grotesco como seu humor. Nada sentiu e partiu para as próximas. Acredite, mas nada sentiu ainda. Imaginava a sensação de réquiem. Apenas, viveu mais uma tarde como tantas outras.
Sem contar com mais, aceitou um café. Quem sabe apressasse tudo isso! Porém, o que poderia lhe acontecer? No fim, nada além da tolice por ingerir tanta substância. Restou ver o ainda havia de acontecer até porque desviou sua atenção de alguns detalhes.
Sentou na parte do seu agrado no sofá. Deixou ficar pigarreando o gosto ocre. Reviu toda a sua trajetória sem arrependimento. Fez o averso de si sem depois. Não ordenaria como parte de algum desejo. Esclareceu que nada desejava, se não permanecer naquele averso. Somente!

Coisa de mestre! Poucos conseguem descrever um cena com tanta força e expressividade numa belo jogo de palavras e sons… a literatura agradece!