Pôr-do-sol
O sol se punha lento, lentamente, deixando marcas avermelhadas no céu. Ao mesmo tempo, a natureza bradava uma sintonia acalenta, preparando a chegada da noite. Nas ruas, há o movimento de final de tarde, o “hush”, típico de cidade grande. Aos poucos, tudo aquilo vai possuindo olhos e criando um brilho fosco. E mais um dia acabava como tantos iguais a outros…
Aqui, estou eu, acompanhando tudo isso, de um jeito meio niilista e inerte.
Levanto-me, fecho a janela, mesmo com a temperatura abafada e procuro dar voltas pelo cômodo.
Vejo a tv e ligo. Monitoro o controle de canais, permitindo que o meu desinteresse pelas cenas de vida apenas passem. Desligo sem mais.
Vou para o rádio, faço a mesma coisa. Temendo seus ecos, retiro o “plug” da tomada.
Toco na muda de “Comigo-ninguém-pode” plantada por mim e sinto a acidez na ponta dos dedos. E me recuo como um animal ferido. Até as plantas tem a sua maneira de revidar o toque.
Deparo-me com a estante e folheo um livro pesado e volumoso, de aroma passado e concentrado.
Cansei! Necessito dissipar esta fadiga que consome a alma e absorve o vazio.
Olho ao redor até ficar tonto e sento bruscamente na cama. Chegou a hora! Atraso o relógio como uma tentativa falha de voltar ao tempo, muito tempo.


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