A Passagem

•Março 2, 2009 • Deixe um comentário

loucura

Depois de muito tempo, pensando, decidiu ser um animal. Passou a viver tal qual um rato de esgoto. Não tinha mais razão nem sentimento. Tudo isso se resumiu ao instinto de apenas sobreviver no novo mundo.

Então, apenas comia nas horas vagas e caçava de maneira horrenda. Não conseguia pensar no antes porque já não fazia parte de si. Se soubessem como a sua vida se dizia normal, ninguém acreditaria, mas é verdade, sim!

Seus dias se resumiam a trabalhar, ler muito como um tipo de prazer e usar a solidariedade como filosofia de vida. Todos remetiam elogios a isso e até torciam pelo o sucesso e a prosperidade. Era um mar de rosas, porém em qualquer circunstância, sempre há alguma lição a aprender quando vivos.

Aconteceu que críticas, cobranças e outras palavras ferinas foram proferidas por alguém muito próximo. Segundo, quando contou, esse alguém nunca buscou pelo seu valor. Tentou destruir com todas as armas que possuía e nesse caso, usou a idade como provocação.

Assim, sua rotina, seus nervos sairam do controle. Como válvula de escape, passou a beber, depois se drogar. Estava sempre procurando fortes substâncias, se não as misturando para esquecer o peso que sentia por dentro.

Daí, tudo relacionado a maternidade, amor materno, um ódio interno crescia arrebatadoramente. Frases como EU SINTO MUITO, soava como mentira. “Ninguém sente nada por ninguém a não ser alívio de estar acontecendo com o outro.” E isso pesava mais e mais.

Houve tentativas de cura, mas sem cura. Esse caminho não tinha volta, era consciente disso. Implorava para ser isolado, se possível internado com outros de natureza horrenda, mas não recebeu crédito por qualquer que seja.

E sem outras alternativas, numa tarde a solução apareceu. Estava chovendo na bela cidade e em meio a fortes respingos, viu um rato fugindo das águas do esgoto. Por instante, ele desapareceu por uma grade, sem a menor preocupação de quase ser engolido pelas águas.

Ao ver isso, sentiu um forte desejo de ser aquele animal. Não se importou como vivia, mas só a liberdade e a despreocupação era o que precisava. Queria ser como ele por outros motivos talvez, insanos.

Olhou para a chuva, sentiu os fortes respingos no rosto. Quem sabe ela o convencesse a mudar de idéia e até o curasse. Mas, isso não ocorreu. Era apenas uma romântica despedida para a eterna passagem.

Desabotou o casaco, tirou os sapatos e acompanhou o mesmo caminho do seu salvador. Deixou absorver a podridão dos dentritos com um largo sorriso.

Ao terminar o relato, deixou a mostra dentes tais quais companheiros do submundo. Demonstrou não se importar com nada, se não com restos de alimentos que tinha nas mãos. Mordia repetida e rápidas vezes. Parecia não sentir gosto nem nada.

E se foi sem despedidas.

A Tarde da sua ausência

•Fevereiro 16, 2009 • Deixe um comentário

ausencia

Mal ligou o computador, Henrique se deparou com uma foto que reavivou suas emoções longínquas. No mesmo instante, o toque do telefone o despertou para uma estranha realidade. A filha comunicou a morte da mãe e insistiu que ele notificasse a família. Mal-humorado e recordando as humilhações pelas quais passou, resolveu, então, atender o seu pedido.

O incidente o levou às lembranças de uma tarde na Rua Redentor, em que estava deitado na mesma rede que sua cunhada. O contato corpo a corpo provocava sensações desconhecidas em cada um. Após esse episódio, não houve troca de palavras nem outros encontros.

Por outro lado, Vera guardou essa tarde como um índicio de possíveis mudanças em sua vida. Na verdade, já não era possível conviver sob o mesmo teto que o cunhado devido à reprimida atração que ambos sentiam. Dessa forma, inesperadamente se casou com um mexicano, o que fez apressar sua ida para longe da família.

Em relação a isso, os Machado Alves carregavam um legado histórico de poder e luta pela sobrevivência. Como tradição familiar estabelecida pelo patriarca, quando um filho completava 15 anos, era obrigado a sair de casa e viver por conta própria. De todos que passaram por isso, o único que se deu bem foi Álvaro, mas de forma duvidosa.

Álvaro possuía uma grande residência em Ipanema, além de uma posição de destaque em seu trabalho. Suas duas filhas, Dalva e Vera, complementavam seu cotidiano. Dalva era uma colegial que ainda mantinha os laços familiares da Tijuca. Vera, que antes foi Ex-miss do Tijuca Tênis Clube, era casada com Henrique, um advogado desempregado que vivia de favores da família da esposa. À noite, era comum todos se reunirem para um jogo de roleta, sob a vigilância de um lustre de cristal, relíquia do Cassino da Urca – objeto que ostentava a glória de dias de outrora.

Mas o império dos Machado Alves já não era como antes. Inexistiam reuniões à noite, muito menos a casa de Ipanema. Todos se encontravam em um período de decadência, seja emocional ou financeira, salvo Henrique que decidiu socorrer o sogro.

Carlos Heitor Cony descreve a obra de maneira cinematográfica e mnemônica, adicionando pitadas de ironia que enfatizam a ascensão e a queda dos Machado Alves. A erotização entre os personagens é vista como um tipo de consolo e saída diante dos problemas que os assolam.

O romance atrai primeiramente, permitindo a reflexão de que, numa simples reminiscência, é possível sentir bem mais que a ausência.

Humanos em mutação

•Fevereiro 13, 2009 • Deixe um comentário

humanos

Para alguns é comum não falar nem cumprimentar. É uma forma de respeitar “limites”. Para outros é indiferente. Humanos são mutáveis e imutáveis. Mas, há semelhanças e controvérsias sobre isso.

De todas as complicações cotidianas, apontamos em primeiro lugar. Não adianta culpar a tecnologia, a Internet, muito menos eu-sou-assim-mesmo. Até bem pouco tempo, a culpa era do governo, se não do diabo. Na verdade, somos os réus de toda essa complicação, sem que admitamos.

Apesar disso a válvula de escape é partir para terapias, drogas ou comportamentos insanos. Sabemos que agindo assim, colheremos a piedade ou seremos deixados de lado. Melhor dizer, daremos uma trégua à situação.

Bem, o que ainda há a fazer? Não sei – ouvimos. Mais uma tentativa – dizem. Porém, tais respostas estão em nós. É impossível buscá-las nos livros de autoajuda ou qualquer outra coisa que a princípio alivia. Depois, angustia.

O melhor caminho é nos aturarmos no mesmo espaço, utilizando um suposto conceito para tolerância. A solidão é sugestiva, aqui. De qualquer maneira, é inevitável produzir algum som da própria consciência, já que sempre manteremos esse tipo de contradição…