“O Amo não é Amo senão pelo fato de que possui um Escravo que o reconhece como tal”

•Novembro 9, 2009 • Deixe um comentário

liberdade

A liberdade sempre fez parte da história da humanidade, seja em lutas ou conquistas. Porém, a escolha de muitos é ignorá-la até porque desconhecem qual caminho seguir, uma vez retida nas mãos.

Na verdade, idealizá-lanos dias atuais, tornou-se bem comum quando compartilhada com a tecnologia. No universo virtual, tudo é permitidosem nenhuma restrição. Podemos ser qualquer pessoa, estar em vários lugares, ou seja, realizamos todos os nossos desejos, inclusive os mais secretos.

Por outro lado, a realidade em que vivemos ainda é a mesma desde a época da escravidão. A punição física cedeu lugar a psíquica. E quando buscamos algum tipo de abolição, caimos na incerteza do depois.

Exemplificando isso, eis as nossas relações com outros, senão com o trabalho ou a política. São poucos que ainda insistem por mudanças, enquanto outros, pessimistas assim os definimos, decidem estar alheios a elas. E o melhor é se conformar com a própria vida.

Logo, a liberdade ainda é propagada de forma democrática. Mas, ela não passa de uma utopia devido a sua inexistência no cotidiano. Desse modo, acreditaremos nisso sempre, nos recusando então, a qualquer reflexão.

Bolinha

•Novembro 2, 2009 • 1 Comentário

rosa

Estava tomando seu café da manhã, quando sentiu um aperto súbito no coração.

Algo aconteceu! – sussurrou. Então, sem mais esperar, ligou para a mãe e ouviu a tragédia: Bolinha, o gato da família, tinha acabado de falecer.

O chão lhe faltou e graças a uma mesa apoiou o corpo. Apertou o celular contra o ouvido, sem acreditar no que ouviu. Pediu a mãe para repetir diversas vezes a qual aos berros, obedeceu ao seu pedido.

Imediatamente, ligou para o marido aos prantos. Não conseguia acreditar que o seu querido tinha partido, após tantos anos de convivência e afeto. Mais calma, retornou a ligar para a mãe, combinando os detalhes do sepultamento. Isso tinha que ser feito, era de praxe fazer com os animais que cuidava.

E assim passou o dia – fechada, trajando preto e sem ouvir música alguma. Recusava-se até um cordial gesto. Precisava ficar de luto em memória do querido gato. Não conseguia sorrir ou falar naturalmente, se não a voz ficava embargada de emoção e as lágrimas que insistiam em cair.

Desse modo, resolveu fazer um santinho no computador com a foto e poesia. Escolheu a mais adequada possível e nada melhor que Vinícius de Moraes.

Divino – repetiu diversas vezes uma vez pronto. Em seguida, enviou por e-mail para amigos e conhecidos que conheciam o ente. Sentiu até aliviar um pouco o peso da perda, quando recebeu os pêsames de alguns.

Outra vez, ligou para a mãe, quando soube por essa que o estimado gato seria jogado no lixão dentro de um horrendo saco de lixo ainda mais por um estranho da clínica veterinária mais próxima. De imediato, não consentiu com tamanha falta de respeito e consideração pelo animal, decidindo ela mesma sepultá-lo. Combinou então, buscar o corpo quando encerrasse seu expediente.

As horas demoravam a passar, quando resolveu pesquisar sobre Taxidermia na Internet. Se não conseguisse sepultá-lo, tentaria ao menos empalhá-lo. Não se conformava um minuto sequer em ficar sem o Bolinha. Mas, tudo em vão. Não existia em Fortaleza esse tipo de profissional.

Mais tarde, foi à casa da mãe e o viu todo em panos como um bebê, mas num estado que já merecia o eterno descanso. Revoltou-se com as formigas que estavam no corpo dele e resolveu tirá-las, matando-as. Desesperada, chorou todas as lágrimas agarrada ao corpo. Não queria largá-lo, ele tinha que viver, voltar a viver, quando seu marido tentou acalmá-la e ao mesmo tempo, tomando-lhe o gato.

Ao chegar em casa, fez o sepultamento do gato com todas as honras possíveis. Colocou-o numa caixa na qual guardava suas fotos com ele e por fim, sobre o túmulo, uma rosa branca tal como sua cor. Ainda chorou mais um mar de lágrimas. Não conseguia se conformar.

Naquela noite, não dormiu. Deixou-se levar pela nostalgia olhando as fotos suas com o Bolinha até o despontar dos primeiros raios de sol. Nesse instante, tomou consciência que a vida continuava e não tinha como lutar para a inexistência do fim. Isso já era uma certeza natural.

Por outro lado, estava tranquila consigo mesma. Pois, ele estava ali, próximo, aliás, sempre estaria. E lembranças sempre haveriam de existir para ela. Ainda derramou mais lágrimas ao sussurrar:

- Descanse em paz, Meu Gato!

Imediatamente, organizou as fotos e aproveitou algumas horas para descansar. Pois, necessitava disso ao menos por aquele momento…

Doce engano

•Outubro 26, 2009 • Deixe um comentário

engano

Ainda não conseguia esquecer o incidente de oito meses atrás. Continuava ressentida e com muito ódio. A cada dia, imaginava uma vingança diferente. Precisava fazer alguma coisa, seja boa ou ruim. E fez!

Planejou tudo com afinco e dedicação. No fim, era a vítima na pele do carrasco. Antes, telefonou para a mãe contando-lhe o drama por qual passava. Até simulou uma voz de choro e temor de sorte que tal teatro foi válido.

Essa, quase no fim da casa dos 70, logo se apavorou. Tentou acalmar a filha como podia e ainda  implorou por um basta aquele pesadelo. Seria um desgaste tanto emocional como físico reagir as afrontas de uma desfavorecida que não fazia mais parte de nossas vidas – repetia ela.

Assim, após tantas palavras e consolos, desligou prometendo seguir tais conselhos. Chegou a sorrir com escárnio e satisfação após a cena.

Em seguida, telefonou para alguém que certamente a ajudaria. Doce engano!

Após cinco toques – sinal de hora imprópria e incômoda – ela atendeu de modo abrupto e impaciente.

Ao se identificar, houve uma breve mudança. Mas, ao expor o tormento, retornou a frieza de antes. Encenou, recheou a história de tudo quanto era jeito. Infelizmente, não deu certo. A outra tomou partido apenas da mãe, sem imposição de nada. No seu caso, em poucas palavras, sugeriu a ajuda de outros, enfatizando que não estava disponível para apoiá-la. Foi sincera em recusar  seu envolvimento. Eis a decepção!

Então, apenas confirmou suas sugestões  prometendo um breve retorno. Após mais algumas palavras “amistosas”, desligou com um gosto amargo na alma. Desde muito tempo deveria ter acordado para a verdade. As pessoas próximas e de sorriso confortante  estavam a léguas de distância. Realmente, seu marido tinha razão. Ele já a tinha a advertido disso. Por que acreditar que a filha da mãe teria o mesmo auxílio e proteção que sua progenitora?

Melhor seguir adiante com todo o ódio que guardava. O momento exato viria de qualquer forma, já podia senti-lo. Pois, suas mãos formigavam com o tão desejado resultado.